A voz negra que contribuiu com a construção da memória do samba gaúcho:
A história da cultura negra no Rio Grande do Sul também foi escrita através da música, do carnaval e da presença de mulheres negras que transformaram sua voz em patrimônio coletivo. Entre esses nomes fundamentais está Maria Helena Montier, uma das maiores intérpretes da história do samba e do carnaval porto-alegrense.
Com mais de seis décadas de atuação artística, Maria Helena tornou-se símbolo da cultura popular negra no sul do país, abrindo caminhos em um cenário historicamente marcado pelo apagamento da presença negra na construção cultural do Rio Grande do Sul. Sua trajetória atravessa rádios, clubes negros, escolas de samba, tribos carnavalescas e palcos da cidade, sempre carregando consigo a potência da ancestralidade e da memória coletiva do povo negro.
Maria Helena Montier iniciou sua caminhada artística ainda jovem, participando do tradicional programa de auditório Clube do Guri, da Rádio Farroupilha, espaço que também revelou nomes como Elis Regina. Desde cedo, sua voz chamou atenção pela força interpretativa e pela presença marcante.
Ao longo das décadas, consolidou-se como uma das grandes vozes do samba gaúcho. Atuou em importantes conjuntos musicais, como o Satirisamba e o Fantástico Samba Show, além de construir uma carreira solo reconhecida dentro e fora do estado. Em 1987, lançou o disco Maria Helena, considerado até hoje uma obra importante para a música negra produzida no Rio Grande do Sul. Décadas depois, voltou a registrar sua trajetória no álbum Pra Quem Vier (2018).
Escute a playlist da Maria Helena Montier publicada pela Rádio Garibaldi: https://youtube.com/playlist?list=PL0Dbpbc42YrSQcOAz6Y6C3RlRhTUcJrIB&si=8insa34GJv7Wb8RY
No carnaval, Maria Helena tornou-se uma figura histórica. Sua voz marcou gerações de sambistas e ajudou a construir a identidade sonora de escolas tradicionais como Imperadores do Samba, Realeza, além das tribos carnavalescas Os Comanches e Bororós. Sua interpretação atravessou décadas dos desfiles de Porto Alegre e ajudou a transformar sambas-enredo em memória afetiva coletiva.
Maria Helena representava uma geração de artistas negros que mantiveram vivos os espaços de sociabilidade negra na capital gaúcha, especialmente os clubes sociais negros e os encontros culturais que fortaleceram o samba como território de resistência. Em entrevistas, lembrava com orgulho da efervescência cultural vivida entre as décadas de 1970 e 1980, período em que os clubes negros e o carnaval ocupavam lugar central na vida cultural da cidade.
Além da sua trajetória como cantora e intérprete histórica do samba gaúcho, Maria Helena Montier também teve importante atuação dentro das religiões de matriz africana. Mãe de santo respeitada na comunidade negra de Porto Alegre, comandava um terreiro de Batuque localizado na região do bairro Cefer, espaço de acolhimento, ancestralidade e preservação das tradições afro-gaúchas.
Sua atuação religiosa fazia parte da mesma construção coletiva que marcava sua presença no samba: o fortalecimento da cultura negra, da memória ancestral e das redes de cuidado comunitário. Para muitas pessoas, Maria Helena era não apenas uma grande voz do carnaval, mas também uma referência espiritual e afetiva dentro do povo de axé.
Através do terreiro, manteve viva a transmissão de saberes ancestrais, reafirmando o papel histórico das mulheres negras como guardiãs da memória, da espiritualidade e da resistência cultural no Rio Grande do Sul.
Maria Helena Montier faleceu em 13 de janeiro de 2026, aos 80 anos, deixando um legado incontornável para o samba, o carnaval e a cultura afro-gaúcha