‘Pelo escuro’: Vladimir Rodrigues reflete sobre música,

memória e a presença negra no RS

Às vésperas do lançamento do primeiro álbum do Grupo Desagravo, o músico e

compositor Vladimir Rodrigues reflete sobre a trajetória que deu origem ao

projeto, o longo processo de criação de “Pelo escuro – letra e música (vol. 1)” e a

força de um trabalho que transforma a poesia de Oliveira Silveira em música,

reafirmando a presença e a contribuição negra na história e na cultura do Rio

Grande do Sul.

O grupo Desagravo nasce a partir do encontro com a obra “Pêlo Escuro”. Como

foi, para ti, o primeiro impacto com a poesia de Oliveira Silveira?

Vladimir: O contato inicial que tive com a poesia do Oliveira foi no ano de 1997, através do poema “Negro no sul”, musicado por Luís Vagner, o nosso guitarreiro. A música, tocada em ritmo de reggae, foi intitulada “Negros no Sul”. O impacto pra mim foi avassalador, sobretudo porque era a primeira vez que conhecia uma poema – e também uma música – falando do negro no Rio Grande do Sul com pertencimento e orgulho. Nesse mesmo ano de 1997, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o professor Oliveira, e ele próprio me indicou uma antologia em que seus poemas se faziam presentes. Ao mesmo tempo que conhecia os escritos de Oliveira, também tive acesso a outros grandes autores negros, como Cuti, Carlos de Assumpção, Solano Trindade. Eu gostei de todos, mas a proximidade com o Oliveira e a vertente afro-gaúcha tornaram a sua poesia especial para mim, como algo íntimo, pois, além de negra, era também regional e falava de uma vivência que eu conhecia através dos relatos meus pais e dos meus avós que eram do interior do Estado (Santa Maria e Dom Pedrito) e vieram para a Capital na década de 1950.

Ao longo desses cinco anos, o trabalho de transformar poesia em música foi se

modificando. O que mudou na tua escuta e na tua relação com esses poemas?


Vladimir: As canções do álbum Pelo Escuro começaram a ser compostas por mim no início

dos anos 2000, quando conheci o livro Pêlo Escuro. O conjunto da obra só foi finalizado

quando, junto com Renata Pires e Mingo Niemê, criamos o Grupo Desagravo em 2021. Foram quase vinte anos de gestação dos temas musicais. Num primeiro momento, eu precisava de uma validação externa das minhas composições, pois sabia que estava mexendo com algo muito precioso, tanto pelo ineditismo da temática afro-gaúcha, quanto pela excelência da poesia do Oliveira. Infelizmente, não consegui mostrar as composições para o poeta, que veio a falecer no início de 2009. Em 2012 criamos o sarau Sopapo Poético, entre militantes, artistas, amigos e seguidores das ideias do Oliveira. Nos saraus consegui apresentar alguns dos poemas do Pêlo Escuro musicados, os quais, pra minha alegria, tiveram boa aceitação do público presente. Em seguida, fui mostrando mais canções para a Naiara Silveira, filha do mestre e continuadora do seu legado. Ela aprovou e me incentivou a prosseguir com o trabalho de musicalização do livro. Assim, com esse ânimo renovado, consegui concluir a totalidade dos vinte e dois poemas do livro até chegarmos à formação do Desagravo em 2021. A criação do grupo e a reiteração da execução em ensaios e shows trouxeram um amadurecimento para todas as canções, com outras percepções sobre os temas e novos arranjos vocais e instrumentais, que potencializaram as ideias iniciais. De outro lado, muitas palavras e expressões do linguajar campeiro, como “eira”, “manga”, “atropelo de haspa”, “matungo”, etc.,

estranhas ao meio urbano em que fomos criados, foram sendo melhor conhecidas, ampliando a nossa compreensão do sentido de cada poema, o que ajudou a direcionar a musicalidade produzida.

 Como tu percebes o desafio de musicar uma obra tão carregada de densidade

histórica, política e simbólica sem perder a força original dos textos?

Vladimir: É um trabalho que pode ser intuitivo, como pegar um violão e sair cantarolando algo escrito na página de um livro, mas se torna muito complexo, quando nos deparamos com a historicidade que as imagens retratadas nos textos carregam e nelas enxergamos a nossa própria trajetória. Tentar traduzir isso para o momento atual, para as velhas, novas e futuras gerações, com uma linguagem musical moderna, mas que não se distancie do passado, e com absoluto respeito e admiração à biografia e à memória do poeta, é a nossa missão. Não é nada fácil, mas nos entregamos a esse nobre desafio, procurando estar à altura – pelo menos em intenção e coerência – da obra e do caminho traçado pelo mestre.

O álbum articula ritmos da cultura gauchesca com expressões da diáspora

africana. Como tu enxergas esse encontro entre o regional e o afro no som do Desagravo? 

Vladimir: Esse encontro de expressões culturais em nossa música não é aleatório. Pelo

contrário, o entendemos como algo fundamental para o reconhecimento da essencialidade do elemento negro na formação cultural do Rio Grande do Sul, uma das bandeiras do Pêlo Escuro. É muito tranquilo pra nós negros urbanos tocarmos uma milonga ou uma vanera com bombo, tambores e agê, pois as células rítmicas estão muito próximas dos gêneros musicais populares que crescemos ouvindo e tocando, como o samba, o samba-canção, o ijexá, entre outros. Os ritmos gauchescos são muito populares e tem em sua grande maioria raiz africana e indígena, ainda que isso não seja publicamente reconhecido no meio tradicionalista, muito por conta do verniz europeu que sempre se tentou passar na cultura regional. Na esteira da poesia do Pêlo Escuro e seguindo o exemplo de muitos artistas negros gaúchos, como Loma, Kako Xavier, Pedro Homero, César Passarinho, Giba Giba, procuramos explicitar a negritude na música regionalista, o que, ao nosso ver, tem um resultado bastante satisfatório também em termos estéticos.

A obra de Oliveira Silveira propõe uma revisão crítica da história oficial do Rio

Grande do Sul. De que forma tu acredita que o disco contribui para ampliar esse debate hoje?

Vladimir: Por sua trajetória pessoal, a própria existência do Oliveira foi uma expressão do afro-gauchismo. Ele descendia de uma família de campesinos negros de Rosário do Sul e passou  sua infância e adolescência no meio rural, até deslocar-se para Porto Alegre para

complementar a sua educação formal nos anos 1950. Ao longos dos anos que viveu na Capital, ele nunca se afastou da raiz campeira e fez questão de trazê-la para a sua poesia,

evidenciando a familiaridade do sujeito negro com as “coisas” do Rio Grande do Sul. No “Pêlo Escuro” ele trouxe o negro para dentro da História, abordando vários traços do regionalismo gaúcho, como as guerras históricas (Lanceiros negros, Forte de Caçapava), a pujança econômica (Charqueadas), o ruralismo (O trigo), o folclore gauchesco (Negrinho do pastoreio e Negro Bonifácio), as danças gaúchas (Negro chuliador), as tradições (Gaúcho negro mateando), o aquerenciamento (Sim:querência), o litoral (Evocação de Osório) etc.

Por sua vez, esperamos que o álbum “Pelo Escuro – letra e música” ajude a potencializar o

alcance das assertivas e questionamentos do poeta sobre o lugar e o papel do povo negro na história do Rio Grande do Sul, trazendo a linguagem musical, supostamente mais acessível à maioria das pessoas. Almejamos que este trabalho consiga comunicar ao povo negro a ideia de pertencimento a esta terra. Somos descendentes de escravizados que estiveram aqui desde o início da colonização portuguesa e trabalharam em todos os ofícios, em todos os rincões. A raiz afrodiaspórica é proeminente em todos os lugares onde o negro chegou em séculos de exílio forçado, porque no sul do Brasil seria diferente?

O Desagravo tem uma trajetória muito ligada a espaços de formação, como

escolas e eventos de letramento racial. Como essa experiência atravessa a criação do álbum?

Essa experiência nos mostra a importância de entregar uma obra que não se restrinja apenas ao campo artístico, mas que seja também um documento que consiga contar a nossa história, na contramão do senso comum e dos falsos estereótipos criados sobre o povo negro no Rio Grande do Sul. A partir de inúmeros encontros em espaços culturais e escolares, percebemos como esse trabalho desperta emoções diferentes em cada público e como instiga o interesse em saber mais sobre a presença negra no Estado.

O repertório percorre diferentes gêneros musicais, como milonga, chamamé,

samba e candombe. Como é decidida qual sonoridade melhor traduz cada poema?

Vladimir: Além dos ritmos gauchescos, que em sua grande maioria possuem raiz africana, nós também trabalhamos com os ritmos negros urbanos que acompanham as nossas tradições familiares há muitos anos e historicamente caracterizam a presença negra no Estado. Procuramos enquadrar os gêneros musicais de acordo com o enredo e a entonação de cada poema. Por exemplo, “Gaúcho negro mateando” descreve um sentimento subjetivo, o banzo, então o colocamos em uma milonga lenta, que, por si só, já transmite a ideia de solidão. Já a “Casa de negros” evoca um canto coletivo, de pergunta e reposta, um ambiente festivo. Poderia

ser uma vanera, mas escolhemos tocá-la com um samba-de-roda, justamente para trazer uma ancestralidade afro-brasileira que é anterior ao próprio Rio Grande do Sul.

O disco é fruto de um processo coletivo bastante consolidado. Como tu

descreveria a construção musical entre vozes, violão e percussões dentro do grupo?

Vladimir: Nosso processo de construção musical passa pela escolha do gênero e do

andamento de cada tema, seguido pela preparação dos arranjos da base percussiva, da

harmonia e das vozes. É geralmente estabelecido nos ensaios com a participação de todo o

grupo. Como não temos muitos instrumentos harmônicos, procuramos complementar os

acordes do violão com intervenções de vocais e coros. Na montagem do grupo, formado por

pessoas negras, e na escolha dos convidados que participam de nossas apresentações,

buscamos valorizar, além das aptidões artísticas, a trajetória e o envolvimento com a causa

negra, de forma que a contribuição de cada um/uma ajude a consolidar uma identidade musical

coerente com o conteúdo da temática do Desagravo.

 O lançamento ocorre na Casa de Cultura Mario Quintana, um espaço

historicamente ligado à atuação de Oliveira Silveira. O que esse lugar representa para ti nesse momento?

Vladimir: Tivemos a felicidade de sermos selecionados no edital de ocupação da Casa de

Cultura Mário Quintana 2026 e que a data de lançamento pudesse coincidir com a véspera do aniversário de 85 anos do Oliveira Silveira. Esse talvez seja o lugar mais apropriado para

receber o lançamento. Antes mesmo da grande reforma do Hotel Majestic nos anos 1980, a

CCMQ acolheu projetos de iniciativa do professor Oliveira como as “rodas de poesia” e

encontros e seminários da Associação Negra de Cultura – ANdC, entidade por ele liderada. Nos anos posteriores à reforma, foi o lugar preferido do poeta para realizar suas atividades.

Atualmente, a CCMQ tem no 5o andar o Espaço Oliveira Silveira, onde se encontra um

pequeno memorial e parte do acervo do poeta, aberto à visitação permanente.

Este é o primeiro volume de um projeto maior. Que caminhos tu imagina que

ainda serão abertos a partir desse lançamento?

Vladimir: O livro “Pêlo Escuro” tem vinte e dois poemas, todos já musicalizados. Entendemos que não seria viável fazer o registro de todos os títulos neste álbum, com o recurso e prazo que dispomos. Então, resolvemos dividir a obra musical em dois volumes, cada um com onze poemas musicados. Esperamos que a realização desse primeiro volume represente a consolidação da nossa proposta e identidade musical, fruto de cinco anos de trabalho contínuo. Acreditamos que, a partir deste lançamento, um maior número de pessoas terá acesso ao nosso trabalho e à obra do Oliveira e que, dentro das possibilidades acessíveis a projetos musicais não comerciais como o nosso, tenhamos maiores chances de chegar a outras cidades gaúchas e também de fora do Estado e levar essa mensagem a quem precisa escutá-la.

Entrevista: Silvia Abreu (MTB 8679-4) 

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